| O caso das Olimpíadas de Barcelona (1992) costuma ser citado como exemplo do uso de um megaevento para alavancar a recuperação de uma cidade. Que condições permitiram o sucesso do projeto na época?
CARLOS VAINER: Quando se transforma uma experiência específica como modelo, é preciso ter cuidado para não desenraizá-la das condições históricas em que aconteceu. Na época em que o projeto de Barcelona foi feito, a Espanha estava entrando na União Européia e recebeu dotações milionárias que respaldaram aquele processo na cidade. Além disso, era o momento de redemocratização da Espanha, a nova Constituição reconhecia a autonomia de províncias como a Catalunha, e estava no poder em Barcelona um partido socialista que tinha compromisso com os movimentos sociais locais. Tudo isso favoreceu a recuperação da cidade, inclusive do ponto de vista dos recursos financeiros. Mas hoje Barcelona também é objeto de críticas. Há uma grande desigualdade sociais na cidade, embora ela tinha agora uma área nobre que virou cartão-postal, como Rio tem a Zona Sul. Há uma controvérsia na academia e nos movimentos sociais catalães sobre as consequências da hegemonia desse modelo competitivo adotado por Barcelona.
Como esse modelo pode ser definido?
É a transposição para a esfera pública de modelos de gestão e competição empresariais. A cidade passa a ser vista como uma empresa, que compete com outras cidades-empresa no mercado internacional. A cidade é reduzida a uma das suas dimensões, a econômica, e mesmo assim a apenas uma das faces dessa dimensão econômica, que é a empresarial. E a partir do momento em que se pensa a cidade como empresa, ela também passa a ser vista como mercadoria: como eu posso "vender" minha cidade para o mundo? É desse pressuposto que se desenvolve o marketing urbano, e Barcelona tem hoje o melhor do mundo, adotado como modelo pelo Rio. Porém, esse, como qualquer marketing, opera com uma perspectiva redutora da realidade: se você quer "vender" o Rio no exterior, não vai mostrar favelas, pobreza nem desigualdade. O marketing torna invisível tudo que não é uma virtude da mercadoria.
Como a mobilização em torno do megaevento influencia a identidade de uma cidade?
O megaevento age como um catalisador desse modelo, por que ele concentra toda a cidade num único símbolo. Segundo a sociologia urbana, a cidade se define por três aspectos: tamanho, densidade e diversidade. Isso é uma cidade: um lugar onde há muita gente, junta e diversa. Reduzir a cidade a uma única dimensão, seja a mulher bonita de Ipanema ou uma paisagem da Zona Sul, é esconder a diversidade, é a negação da cidade. A cidade-empresa torna invisíveis as diferenças, porque ela vende não o que ela é, e sim o que quer parecer. É um processo simbólico que tem consequências concretas, como no caso das remoções no Rio. Cria-se a utopia de uma cidade sem pobres, mas os pobres existem nesta cidade. O que fazer? A solução encontrada é: mandar para longe esse elemento que corrompe o ideário da cidade perfeita. Só que esse ideário é irreal no Rio, por que a cidade está fundada sobre uma sociedade profundamente injusta.
Como a construção dessa imagem para consumo externo influencia a imagem que a cidade tem de si mesma?
Assim como há um marketing para fora, há um marketing para dentro. Produz-se uma autoimagem que também silencia parte da cidade. Numa cidade-empresa, é necessária a união de todos em torno de um objetivo comum, o que acaba eliminando a diversidade e o debate. O suporto consenso em torno desse objetivo comum restringe a discussão sobre o futuro da cidade. Quando alguém pergunta se devemos gastar tanto dinheiro com as Olimpíadas em vez de resolver o saneamento de uma cidade onde 40% dos domicílios não tem esgoto, ou por que fazer transporte público para a Barra da Tijuca, que não representa nem 20% das viagens diárias do Rio, em vez da para a Baixada e Niterói, que respondem por quase 80% das viagens, isso é tratado como traição ao objetivo comum. O megaevento é visto como uma oportunidade de negócios, e não se dá o espaço para discussão, por que é preciso aproveitar a oportunidade.
Quais podem ser as consequências de se encarar o megaevento sobretudo como "oportunidade de negócios"?
A criação do que chamo de "cidade de exceção". O megaevento gera todo uma legislação ad hoc, específica e casuísta, para aproveitar a oportunidade de negócios. A regra coletiva, pública, sucumbe diante de uma sucessão interminável de exceções: regime diferenciad de contratação, isenção tributária para hotéis, isenção fiscal e alfandegária para parceitos do COI... Uma das leis aprovadas permite que os municípios se endividem com obras para a Copa acima da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ou seja, não se pode superar o orçamento para fazer um hospital ou uma escola, mas para fazer um estádio, sim. Os municípios estão se endividando, e não se discute o que isso vai provocar nos próximos 10 ou 15 anos em termos de orçamnto público.
Nesse quadro, o que pode ser feito para que os megaeventos dessa década deixem, de fato, um legado positivio para o Rio?
A informação tem que circular. A sociedade precisa saber quais são os projetos, quanto custam e que impacto terão sobre o orçamento público hoje e amanhã. Precisa haver um controle social dos gastos. A maior parte dos investimentos para esses eventos é dinheiro público entregue a instituições privadas. Que retorno esse investimento terá? Cita-se muito o exemplo de Barcelona, mas outras Olimpíadas, como a de Atenas (2004), foram catástrofes. Montreal até hoje paga dívidas das Olimpíadas de 1976. Também precisamos debater o planejamento da cidade. Por que parte da população tem que ser removida para a periferia? O argumento principal do governo é de que os terrenos no Centro são caros, mas temos a área portuária, onde cerca de 80% da terra é pública. Por que não aproveitar esse espaço para habitações de interesse social, em vez de entregá-los à iniciativa privada? A imprensa sempre criticou a "cidade partida", mas estamos aprofundando esse problema com as remoções, e isso é silenciado. Se a cidade é o lugar da diversidade, é necessário que coexistam, próximos uns aos outros, diferentes grupos sociais. Temos que impedir que se construam guetos, tanto dos pobres, com as remoções, quanto dos ricos, nos condomínios de luxo. | |